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O Ultramar

O ULTRAMAR

O Navio seguia repleto. As nossas camas situavam-se num porão, porém preferimos mudar para junto das casotas dos cães, ao ar livre por causa do enjoo.Tivemos azar de não termos acompanhado, os colegas das outras companhias que viajaram de avião, isto por causa das casotas dos cães. A maioria dos soldados do exército refugiavam-se no fundo dos porões, rabiscando nos aerogramas pequenos "gatafunhos" que diziam ser notícias frescas para tranquilizar os familiares, enquanto outros, recostados num qualquer recanto do navio, iam tragando um naco de presunto e enxaguando a goela de "tintol" para dar sossego à sua inquietação. Num outro recanto e numa algazarra que mais parecia uma sala e amontoados sobre um baralho de cartas que depois de viradas distribuíam bastas tristezas e outras tantas alegrias, alguns soldados faziam tilintar moedas que já pareciam "cansadas e fartas de pertencerem a diversos donos", num vaivém que provocava a angústia de quem não tinha sorte ao jogo. Nos salões do navio respirava-se outro ambiente, onde os oficiais e sargentos desfrutavam de um outro conforto e comodidade (diziam uns ser uma dádiva do regime e um direito de classe, enquanto outros, muito poucos, diziam ser uma afronta aos demais que ali navegavam para uma igual missão) que contrastava com a incomodidade de quem, mais parecendo saído do fundo de uma mina, sentado no convés, fazia dele sua sala de estar, e da maresia do Atlântico um sopro que lhes devolvia um pedaço da dignidade tão "amordaçada" no fundo dos porões (...)A comida que serviam aos soldados num prato de metal era péssima. Nós pára-quedistas habituados a umas óptimas refeições no RCP em Tancos, não conseguíamos ingerir a comida fornecida, e quando o tentávamos logo vomitávamos. Começamos a protestar. Não tínhamos nenhum oficial da força aérea que pudesse olhar para o nosso lado. Quando pedíamos para falar com o Comandante do Navio era-nos negado.Deixamos de comer e começamos a emagrecer. Depressa chegou aos ouvidos do Comandante que estávamos a fazer greve da fome o que era considerado muito grave. Logo o Comandante ordenou para que um de nós fosse falar com ele.

Para ter direito ao subsídio de 500$00 mensais, tinha que efectuar o mínimo de 8 saltos por ano.

Em Maio de 1966 inicio o curso de Tratador e Treinador de Cães de Guerra, no Regimento Caçadores Pára-quedistas, que durou 6 meses.Foi-me distribuído um cão pastor Alemão de nome ?PRINCE? e ao fim de seis meses verifica-se que o cão é de fraca qualidade. Entretanto regressa do ultramar um cão já experiente em missões de guerra de nome ?ERL? o qual me foi entregue em substituição do Prince. O pré era de 40$00 mensais mas só recebia 22$50 porque um dia quando ainda era recruta e me encontrava de faxina sem intenção deixei cair um pirex que se partiu. Descontei-o durante dois anos. O que me safava eram os quinhentos escudos mensais que recebia de subsídio por efectuar um mínimo de oito saltos anuais em pára-quedas e o dinheiro de alguns serviços de fim-de-semana que efectuava por outros colegas. Depois de longos treinos, em 1967 sou nomeado para seguir para Angola. Não gostei da nomeação, pois a minha preferência era Moçambique por considerar a minha segunda pátria. Angola nada me dizia. Assim, procurei alguém que fizesse a troca o que aconteceu e em 28 de Fevereiro de 1968, com mais cinco colegas embarcamos no Barco NIASSA acompanhados dos cães para Moçambique, juntamente com outros militares do exército.

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