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Colono aos 9 a...

A bordo era tudo muito estranho e diferente de tudo a que estava habituado a começar pelas refeições e acabar nos porões onde dormíamos num salão enorme cheio de beliches uns em cima dos outros, atravancados de cestos, garrafões de vinho, de azeite, chouriços, salpicões, presuntos, fruta e outras coisa que as pessoas queriam levar consigo que impregnava o ambiente insuportável de cheiros e odores, a par dos cheiros das suas roupas e corpos por lavar. Na primeira refeição a bordo foi-me apresentado um prato de pastéis de bacalhau. Meu irmão segredou-me ao ouvido "não comas, são caganitas de cabra". Pois, não comi e tive que aturar os moldes de uma querida mãe a tentar convencer-me que aquilo era um petisco muito saboroso. Aliado ao balanço do navio era o pessoal todo a vomitar por todos os cantos do barco, dia e meio depois de termos partido de Lisboa.Chegamos à Madeira e ficamos ao largo. Fomos a terra a bordo de uma lancha, enquanto outros ficaram abordo. Pequenas embarcações acercaram-se do navio com lembranças da Ilha, trabalho artesanal que vendiam. Os passageiros atiravam o dinheiro para as embarcações e através de uma corda as lembranças eram então içadas para bordo. Outros pequenos miúdos, pediam que lhes atirassem moedas para a água, que eles logo mergulhavam e iam em busca delas a caminho do fundo do mar em grandes mergulhos para delírio de todos debruçados na murada do navio. Assim se passaram as horas de paragem na Madeira.O resto da viagem era aproveitado para mergulhar numa piscina improvisada com paredes de lona ou curricar alguns peixes com linha de costura e alfinetes dobrados que serviam de anzol. Manhã muito cedo, a nossa ansiedade era muito grande, para saber como iria ser a tal falada África dos pretos como se dizia em Portugal. E finalmente a 20 de Abril de 1956 o Paquete Vera Cruz chega a Moçambique, numa manhã cinzenta e calma, somente se ouvem motores de outras embarcações e apitos, vozes que avisam da sua aproximação. Dentro do navio a excitação é grande. Correrias de um lado para o outro, o monte de malas nos corredores do convés, enquanto o navio desliza calmamente rumo ao Porto de Lourenço Marques, já com o Piloto da Barra a bordo que veio buscar o navio à entrada da Barra. À nossa direita começa-se a desenhar um alto morro de terra, entre o amarelo, vermelho e castanho. Gaivotas cruzam o navio de um lado para o outro, com os seus pios agudos e estridentes. À nossa esquerda uma língua de terra comprida, chamava-se Catembe. Muito lentamente o navio lá se ia aproximando do cais com as pessoas a tornarem-se cada vez mais visíveis e nós na ânsia de vermos as pessoas que procurávamos, íamos gritando, estão ali, não ali, está de camisa amarela, até que lá conseguíamos ver quem queríamos e aí eram os gritos os acenos as perguntas. Feitas as manobras de atracagem, começaram as formalidades de desembarque.Tudo com muita lentidão à mistura e com empurrões pela ansiedade de todos quererem ser os primeiros. Finalmente chegou a nossa vez de sair e pela primeira vez pisamos solo africano, com uma sensação muito estranha de sons, cheiros e vozes à mistura. Os europeus num tom de pele por queimar e os negros calmos pachorrentos transpirando um cheiro a catinga, com os olhos muito abertos, olhavam as cenas de chegada, dos abraços, dos beijos, eram os bagageiros que transportavam as nossas malas para os carros que nos levariam enfim para os locais que cada um iria habitar. Postas as malas na carripana do meu tio Domingos, que nos transportaria à casa que iríamos habitar na Malhangalene, lá seguimos com os olhos muito abertos olhando numa ânsia desmedida de querer ver tudo numa só vez, marginal fora. Chegados à casa, a nossa excitação era enorme, começamos a correr pelo corredor da mesma como loucos para a conhecer. Descarregadas as malas começamos logo por atacar bananas que o meu Pai tinha na dispensa, um grande cacho de bananas ainda por amadurecer. No dia seguinte fomos todos passear pela baixa da cidade e (bazar) mercado municipal. Aqui existiam muitas bancas com fruta tropical, mas, o que me chamou mais a atenção foi ver uma banca com grande quantidade de um fruto muito pequenino e vermelhinho. Não sabia que fruto era aquele e pedi aos meus pais para me comprarem. Não me ligaram nenhuma. Aproveitando a distracção do “monhé” dono da banca, agarrei uma mão cheia daquele supostamente apetitoso fruto e enchi a boca com eles. Dentro de segundos comecei aos berros. Gritava com todas as forças que possuía. Ardia que se fartavao raio daquela fruta. Meu pai logo disse que aquilo era piri-pire. Bebia água mas não resultava.Sofri durantetodo o dia. Toda a gente se ria do meu sofrimento. Devido à diferença de pronúncia e qualidade de ensino, em vez de ser matriculado na terceira classe, fui obrigado a repetir a segunda classe na Escola Primária João Belo. Não me adaptava. Era considerado um parolo recém-chegado. Embora já com nove anos de idade, o meu corpo era franzino e mais parecia ser uma criança de sete. Mudei de residência para o Alto Maé e fui matriculado na Escola Paiva Manso. Voltei a repetir a segunda classe. Em comparação com os outros alunos, era considerado uma criança difícil, com insucesso escolar. Facilmente me envolvia à pancada. À minha roda juntava-se alguma rapaziada que gritavam “molho!” “molho!” “molho!”. Era inevitável.

COLONO AOS 9 ANOS DE IDADE

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