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Memórias InesquecíveisEm 1950 encontrava-me a residir na casa da minha avó materna, na minha freguesia de Vila Fria e ainda me lembro quando acompanhava minha mãe ao “jornal” isto é, devido à pobreza de então, ela trabalhava ao dia no campo, “de sol a sol” sachando a terra de ricos lavradores, os quais, a troco de um mísero salário pagavam com uma pequena quantidade de feijão, toucinho e pão de milho, (brôa). Tinha eu apenas três anos de idade e minha mãe levava-me com ela para o campo onde tanta miséria encerra, por memórias do passado. Naquele tempo existiam campos onde os terrenos sulcados desabrochavam em flor, hoje terrenos baldios abandonados ao vazio. E como se soubesse o que sinto desabrocha em mim faminto um vislumbre do passado que me devolve a esperança de voltar a ser a criança e a recordar os tempos em que via o nascer do dia a ver minha mãe, a sachar a terra, nos campos da minha freguesia.. Ela usava lenço sobre os cabelos longos, sempre presos, um vestido de mangas compridas - para não mostrar os braços - olhos tristes, um avental sujo de terra, e era sempre assim, até um dia se tornar o princípio, não o fim, da aventura que, a partir dali, encetava. Pelo Natal a família reunia em casa dos meus avôs paternos, António Martins Lário e Sabina Martins, situada no Lugar do Paço - Alvarães. Seguia-se para lá ao pôr-do-sol. Meu avô era artesão. Tinha uma oficina com dois tornos de vara onde fabricava grande quantidade de torneiras de madeira destinadas às pipas de vinho, colheres de pau, piões, ect. Os tornos de vara foram muito utilizados durante a idade média e continuaram a ser utilizados até o século XIX por alguns artesãos. Nesse sistema de torno a peça a ser talhada era amarrada com uma corda presa numa vara sobre a cabeça do artesão e sua outra extremidade era amarrada a um pedal. A peça a tornear, era normalmente de cerejeira que depois de cortada à medida e moldada com uma enxó era fixada ao torno. O pedal quando pressionado puxava a corda fazendo a peça de cerejeira girar. A vara por sua vez fazia o retorno. Viam-se as estrelas e a Lua muito brilhantes o que fazia alumiar o caminho. Eram dias muito difíceis. Meu pai e dois irmãos mais velhos trabalhavam de carpinteiro em Vigo – Espanha. Tinham lá uma oficina de carpintaria com tornos onde torneavam madeira tal e qual como fazia o meu avô. O dinheiro era pouco, lembro-me de passar fome. Não havia leite nem carne de vaca. Havia carne de porco na salgadeira e chouriças de cebola. Comia-se quase todos os dias sopa de feijão, com hortaliça e farinha de milho. O prato mais rico era batatas cozidas descascadas à mão conforme se iam comendo, metade de uma sardinha e um bocado de broa. O pão de trigo só havia na Páscoa e era oferecido como folar pelo padrinho de baptismo. Em 1952 estávamos a viver no Lugar de Valaídos - Vigo - Espanha, onde como já referi trabalhavam o meu pai e os dois irmãos mais velhos. Aqui iniciei a escola primária. Era um bom aluno e depressa me adaptei à língua espanhola. Fiz a primeira e a segunda classe.Em 1955 regressei à minha freguesia e a escola para aprender o alfabeto, a tabuada, as linhas férreas e os rios de Portugal. Nesta altura tinha pronúncia espanhola e não conseguia adaptar-me à nova forma de ensino. A professora marcava os deveres para fazer em casa. Não havia cadernos. Usava-se uma ardósia. Transportava o livro e a ardósia num saco de pano costurado pela minha mãe. Descalço, calções com remendos e de alças lá ia eu para a escola e quando lá chegava não escapava de levar pelo menos dez reguadas em cada mão. Já estava habituado. Só eu apanhava com as reguadas e vim a descobrir que a professora tinha esta atitude comigo para incutir medo aos restantes alunos a portarem-se bem.Nesta altura, vivia numa pequena casa que ainda hoje existe, situada nas traseiras do cemitério. Só tinha medo de passar pela frente do cemitério à noite, pois diziam que as luzes que se viam do exterior (lâmpadas de azeite) eram almas dos defuntos. Para passar pela frente do portão e vencer o medo diziam que apertar bem uma mão cheia de terra, era a forma de não ser perturbado. Com essa teoria ajudava-me a perder o medo por acreditar que era verdade. Em 1956 passei para a terceira classe, altura que faleceu minha avó materna. Neste mesmo ano viajamos na qualidade de colonos para Moçambique no Paquete “VERA CRUZ”.Não há português ou brasileiro que, tendo cruzado o Atlântico nessa embarcação, deixe de lembrar com emoção de detalhes da viagem e do significado dessa época. Duas excelentes piscinas, ginásio com todo o aparelhamento de ginástica, inclusive remadores e bicicletas fixas, um salão de jogos, court de ténis, uma cabine de rádio para transmitir programas para os 230 alto-falantes de bordo, com recente colecção de discos de músicas clássica e moderna, uma capela com imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, amplos salões e confortável mobiliário etc., tudo foi planeado e executado de maneira a dar aos passageiros a mais agradável impressão e o máximo de bem-estar durante a viagem, entrando definitivamente nas páginas da história e na memória de seus privilegiados passageiros.O mesmo já não posso dizer com os que viajavam na terceira classe que foi o nosso caso. De entre todos os passageiros, minha Mãe, eu, o meu irmão Adelino e as minhas irmãs Ester e Rosa íamos juntar ao nosso Pai e aos meus irmãos José e Manuel, que se encontravam em Moçambique a trabalhar de marceneiros. Era nesta mesma oficina que no dia Natalício se reunia toda a família. Era ao redor de uma fogueira que todos se sentavam uns em bancos, outros no chão ou em cepos. Cantavam e contavam histórias, acompanhadas de bons petiscos regionais, e outras guloseimas da época, não esquecendo o bom vinho denominado AMERICANO tirado de uma grande pipa ali ao lado. Jogava-se à piurra põe, tira, deixa e rapa o prémio eram as nozes. Decorria pela noite fora e conforme se ia perdendo, normalmente lá pelas três da manhã, retirava-se cada família para as suas casas. Não havia transportes e portanto cada um deslocava-se a pé, independentemente da distância. Lembro-me de estar muito frio. Era uma noite de luar. MEMÓRIAS INESQUECÍVEIS TORNO DE VARA 11 12 12This website was created using MAGIX Website Maker. You will need the current version of Adobe Flash Player to view it. Further information can be found at magix.info - the Multimedia Knowledge Community by MAGIX, the market leader for music, photo, and video software. |