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PAG.1Zeca Russo foi uma figura mítica de Lourenço Marques. Filho ou sobrinho da moça das docas, figura que povoava os primeiros poemas do poeta Virgílio de Lemos, era jovem, bem parecido, simpático no trato mas cedo se começou a meter pelos trilhos do pequeno crime. Um furto aqui, uma burla acolá, adquiriu também a fama de ser uma espécie de Zé do Telhado que roubava aos ricos para dar a pobres. Não seria bem assim, mas a verdade é que ajudava a mãe, pessoa pobre que o adorava e não fazia a menor ideia da origem do dinheiro que ele lhe dava. Zeca Russo — Carlos José Daniel dos Santos Rocha, de nome — autor de assaltos à mão armada em Lourenço Marques e em Johanesbourg-. na África do Sul, é um dos “folk heroes” da Lourenço Marques dos anos 70. Não consta que roubasse os ricos para dar aos pobres, mas havia muito coração partido na cidade cada vez que a sua foto, aparentada a Bruce Springstein e Johnny Clegg, aparecia pelos jornais.Depois da independência, a Judiciária, a braços com uma terrível falta de agentes e a criminalidade típica de transições turbulentas, foi buscá-lo à cadeia para dar caça à bandidagem citadina. O polícia-ladrão, dizem as memórias da altura, teve êxito assinalável nos primeiros tempos de “senhor inspector”. Mas rapidamente se perdeu em venalidades.O passado foi mais forte. Acabou por morrer violentamente num sórdido apartamento em Hilbrow, uma das “zonas vermelhas” da cidade de Johanesburgo. Lutava-se até um decidir desistir e cada vitória fazia aumentar a fama. Ali perto existia um jardim chamado 28 de Setembro. Um dia ia eu e o meu irmão Adelino a passar junto deste jardim quando ouço do interior um rapaz mais velho “o Américo” a fazer troça. O meu irmão ainda me avisou para ter calma e não ligar. Não me contive. Saltei a vedação e corri na direcção dele, dando-lhe uma sova. Foi o bastante para ser convidado a fazer parte de um grupo de miúdos, onde me apresentaram ao chefe, (chamava-se “ZECA” mais tarde “ZECA RUSSO” devido à cor do cabelo). A deficiência do clima vivido no seio da família, independentemente dos motivos, era determinante. Era naquele jardim que se formavam os grupos homogéneos ao nível da idade e na qual se partilhavam representações e interesses comuns. Nós os miúdos tínhamos a mesma maneira de pensar e de vestir. Partilhávamos os mesmos gostos e hábitos. Agressões aos alunos ou desprotegidos pelos pais eram frequentes. Estímulos ao ensino e actividades atractivas, só aos filhos dos mais abastados. Vivia-se um ambiente de conflitos e confrontos físicos. Os Indianos, conhecidos por “monhés” ricos comerciantes, eram proprietários de grande quantidade de pombos. Aqui iniciam-se condutas desviantes. Cortavam-se câmaras-de-ar para fazer fisgas. O espaço à frente da cantina do Dias ficara deserto. Não de nós, os putos, mas de todos os que por ali passavam. Colocavam-se latas no chão e afinava-se a pontaria. Depressa a mangueira ficava sem mangas, tal era o treino para melhor atirador. Matar os pombos, e mandar os mais novos recolhê-los dos quintais onde tinham tombado, era o lema. Cada um trazia de casa carvão, fósforos, sal e outros condimentos. Seguidamente fazia-se uma fogueira, preparavam-se as brasas e ali mesmo eram assados, e saboreados como um bom petisco.A seguir, com aros “tirado dos barris de vinho”, um pau e um cordel preso ao aro lá se faziam correrias a ver quem aguentava mais tempo com o aro a rolar."Vocês nem sabem o que se pode fazer num segundo," dizia eu, enquanto extirpava fio de cobre, medindo dezenas de metros, e fabricar telefones, usando caixas de fósforos como receptores/emissores. Conseguia-se falar e ouvir... até cerca de 100 metros ou mais. Com o fio bem esticadinho, até bem mais. "Alô, Alô (coincidência, apenas), escuto" "afirmativo, hoje há cinema, repito, hoje há cinema". Praticava-se atletismo até a estrada conhecida por “estrada do sabão” perto do Alto Maé e no quarteirão do jardim a uns 300 metros da escola Paiva Manso. O Zeca Russo chegava sempre em primeiro lugar no entanto dividia connosco os prémios.O ZECA RUSSO tinha 14 anos de idade, era muito inteligente e de compleição atlética. Procurava incutir na criançada alegrias, desvairos e uma certa liberdade e servia de identificação para os restantes elementos. Bastava dar a conhecer que pertencia ao grupo do Zeca Russo para fazer incutir respeito perante quem quer que fosse. Um dia tinha acabado de ver o filme do Tarzan e tentando-o imitar saltando de um muro da escola para um galho de uma árvore, resvalei e caí partindo o braço esquerdo na zona do cotovelo. A fractura exposta era grave e foi osso de roer para os cirurgiões do hospital Miguel Bombarda. O braço foi alvo de várias intervenções cirúrgicas e parecendo já não ter remédio, foi decidido que iria ser cortado, no entanto, naquela altura, o hospital foi visitado por um médico vindo da metrópole e ao passar na camarata da enfermaria deu comigo com o braço pendurado por uns suportes metálicos e tendo procurado saber o que se estava a passar, foi-lhe dito pelo médico chefe do hospital que o meu braço iria ser amputado. Aquele médico, depois de analisar a ficha médica disse: Preparem este doente para ser operado por mim amanhã. Os senhores doutores podem assistir à operação. Muito embora tivesse levado cerca de um ano para que o braço ficasse completamente recuperado, também é certo que se não tivesse sido este médico, hoje o meu futuro teria levado certamente outro rumo.Em 1957 minha irmã Ester com apenas 15 anos envolve-se com o Zé Maria a cumprir o serviço militar e casa-se, mudando-se para a Soalpo-Vila Pery. Acompamhou-a minha mãe juntamente com os restantes irmãos. Eu fiquei a cargo do meu pai. O meu aproveitamento escolar continuou a ser nulo, e aumentava o meu desinteresse pela escola. Um dia, o grupo seguiu para as traseiras da piscina do Desportivo. Ali despimos a roupa e escalamos o muro. Como aquela hora a piscina estava deserta, foi uma alegria eu e os outros totalmente nus desfrutarmos daquele prazer que por vias legais não seria possível, porém, a determinada altura começa a entrar gente e um a um foi escapando, sendo eu o último. Uma vez cá fora, já não vi ninguém e tinham levado a minha roupa. Pois bem, perdendo a vergonha e porque não me surgiu outra alternativa começo a correr desde a Baixa até o Alto Maé, completamente nú, sem ter sido interrompido por quem quer que fosse, até porque os mirones estavam a achar graça. V U . V CANTINA COLONO AOS 9 ANOS DE IDADE 45This website was created using MAGIX Website Maker. You will need the current version of Adobe Flash Player to view it. 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