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Vê-se então proprietário da farma, substituindo a velha inglesa por Maria Sand, uma empregada negra da casa.A Frelimo abrira, entretanto, guerra contra a presença branca e uma base de guerrilheiros instalara-se nas imediações da fazenda. Ainda ali se encontrava quando, em 1975, foi declarada a independência de Moçambique. Começara o seu calvário. Logo de início, a tropa do movimento requisitou a sua velha carrinha, fazendo dele condutor a tempo inteiro. Até se fartar. De tal modo que, com a mulher e os filhos, mudou-se da fazenda para o Chimoio. Todos os dias percorriam o caminho para a farma, até que, um dia, esbarrou com uma sentinela à entrada. Cabeças de gado da sua propriedade serviam de refeição aos soldados. Vocês agora tomaram conta da farma e dois bois. Não me deixam tirar algum? A recepção não foi animadora. Disseram-lhe: A tua terra não é aqui. É lá, em Portugal. Se perguntas muito, a gente trata-te da saúde. Desistiu e voltou para Vila Pery, onde montou uma moagem.Mas a vida da fazenda estava-lhe no sangue e, aproveitando a proposta de um compatriota que voltava à terra, dispôs-se a tomar conta de uma unidade a 6 quilómetros do Chimoio. A condição imposta pelo novo poder foi que ele formasse uma cooperativa – Josina Machel – com 30 e tal trabalhadores. Levou para lá camiões, tractores e outro equipamento, colocando-se à testa da empresa.Tirava entre 40 a 50 mil meticais, e eles 10 mil – recorda -, mas o material era dele e o seu modo de vida muito diferente do deles.O desequilíbrio, todavia, levou os cooperantes negros a protestarem. Então eu saio – contemporizou -, mas vocês têm de me pagar o material. Todos concordaram e assinaram os documentos necessários, mas, dentro de pouco tempo, com muitas libações e escasso esforço, a cooperativa ficou à beira da falência. Os veículos, por falta de peças, foram parando e ele não via um metical. Foi buscar os camiões, vendeu-os por qualquer preço (a maioria estava semi-inutilizada por falta de peças) e, com o dinheiro junto em anos de trabalho, decidiu-se a aguentar mais um tempo.Entretanto, se o Governo de Maputo, por um lado, liberalizou a economia, abrindo-se à propriedade privada, fazendo-lhe voltar à farma, por outro, as condições sociais e políticas pioram, com a crescente actividade da Renamo. Perto do Chimoio, as acções rebeldes intensificam-se e as autoridades governamentais requisitam os camiões civis e os respectivos condutores.Como meio de defesa – as minas eram um perigo constante nas picadas -, vindo-se obrigado a avariar os próprios camiões, para evitar as perigosas saídas. É por esta altura que, numa acção retaliatória – dois trabalhadores haviam denunciado às tropas da Frelimo a ida nocturna de gente da Renamo à Josina Machel -, a fazenda é atacada, dois trabalhadores abatidos a tiro, e destruído material agrícola. Na sequência desta acção, a fazenda ficou deserta e, de noite, a saque.Meu irmão sente-se cada vez mais desanimado. Fazem-no ficar o velho amor por África e a vergonha de voltar para junto da família de mãos a abanar, depois de tantos anos de trabalho.Novos infortúnios o esperam. Certo dia, um tractor com reboque, pertencente a um vizinho branco, é atacado pela Renamo. Dois homens são mortos e outros feridos. Meu irmão acorre em auxílio do amigo, mas as coisas correm-lhe mal. Contou:Vi um miliciano vir na minha direcção e, julgando que era da Renamo, comecei a fugir em direcção à “farma”. Estava a chegar lá, vejo homens da Frelimo a virem para mim. Com os nervos, explodiu: Então, vocês têm armamento e estão aqui a enganar-nos, não defendem nada. Andam aí com uns paus e umas catanas! Não Têm nada com que nos defender? Um dos soldados foi contar ao chefe que um branco estava a dizer que a Frelimo não tinha armas, não aguentava a Renamo. Tanto bastou para que um homem armado se apresentasse junto dele, a fim de o conduzir ao comando: Para ser chamado, já tendes armas, ainda ironizou.O comandante perguntou-lhe se era verdade aquela crítica. Sim, eu falei – confessou. – Essas coisas não se devem falar, mas, pronto. Eu estava chateado, que é que posso fazer? Então a Frelimo não aguenta com nada? Aguenta, mas não pode andar só com paus e catanas. A franqueza rendeu bom dividendo: após dois dias de detenção, o chefe libertou-o com o comentário: Este branco não mente, fala a verdade. Se fosse outro, podia mentir. Mas, como disse que falou, ‘e desculpado.Dissabor ainda mais grave aconteceu quando um homem vestido à civil começou a apresentar-se à porta da casa dele, no Chimoio, empunhando uma arma e pedindo dinheiro. Denunciado pelos empregados dele (desde o ataque ninguém pernoitava na “farma”), foi alvo de um correctivo pela terceira vez que ali apareceu. O pior era que o homem era da Polícia Militar, à qual se queixou, dizendo haver na casa um reaccionário.Eles prepararam um exército inteiro para irem matá-lo - , mas fugiu pela janela e escondeu-se no rio. Levaram-lhe a família e os trabalhadores. De dia, quando voltou a casa, eles estavam lá a espera e deram-lhe logo uma coronhada na cabeça. Levaram-no para o quartel e obrigaram-no a dizer que era reaccionário.Então o senhor é reaccionário? Não. Bumba! Batiam-lhe. Andou assim uns dias. Explicou depois que pensava que o homem era um ladrão, porque já tinha ido a casa dele duas vezes, á civil, de pistola, pedir dinheiro. Teve sorte de o chefe ser um daqueles bons, mais inteligente, que perguntou aos que tinham ido a sua casa o que se passara. O visado defendeu-se, dizendo que estava bêbedo e não sabia o que fazia. O chefe quis mandar todos para a cadeia, mas o meu irmão, calculava que se fossem castigados se iam vingar. Assim, disse que não valia a pena, que não sabiam o que estavam a fazer.Assim, os prevaricadores escaparam à punição, enquanto o meu irmão, num rasgo que podia ter anulado a prudência anterior, mergulhou num acesso de ira, atirando para o chão as catanas dos seus trabalhadores, que lhe haviam sido devolvidas, e gritou: Bandidos, ladrões, se quiserem mandar-me embora, mandem. Trabalhamos aqui toda a vida, deixamos aqui toda esta fortuna e vocês correm connosco! Não, desta maneira assim, não vou! Meu irmão recordava-se desse passo arriscado e comentou: Estava maluco, já não sabia o que dizia.

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