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Após fracassar as negociações de paz sobre o conflito separatista, a Otan atacou à Jugoslávia a 24 de março 1999.Após 79 dias de bombardeamentos, a 3 de Junho de 1999, os líderes ocidentais e Milosevic chegaram a acordo para o fim à guerra: as tropas sérvias iriam retirar-se e permitir o estacionamento de uma força internacional de paz no Kosovo. No dia 10 de Junho, a cúpula militar da Jugoslávia assinou o acordo para encerrar o conflito. Após a entrada das tropas da OTAN no Kosovo, foi instaurado um governo provisório, sob tutela da ONU. A maioria dos soldados do exército jugoslavo deixou a província, e ao mesmo tempo em que refugiados de origem albanesa iniciaram retorno ao território, cerca de 200 mil sérvios fugiram para a Sérvia por temerem represálias.No dia 04JUL99, um comboio com 45 carros da ONU é formado na localidade de Sarajevo rumo ao Kosovo. São conduzidos por polícias de várias nacionalidades. O carro conduzido por mim era o n. 41. De madrugada deu-se o início da viagem em direcção à Croácia, Hungria, Roménia, Bulgária, Macedónia e Kosovo. Foram cinco dias a conduzir, pernoitando na Hungria e Bulgária. Gostei da viagem e fiquei muito surpreendido com a pobreza na Roménia. Para se fazer uma ideia do seu atraso, bastava ver os transportes públicos. Eram carroças puxadas por um tractor. A maior parte das ruas das cidades não estavam alcatroadas e viam-se pedintes por todo o lado, na sua maioria crianças. Chegados ao Kosovo – Pristina, é convocada uma reunião-geral de todas as polícias internacionais, para escolha de postos e colocações. Um dos responsáveis pelo movimento do pessoal era o Subchefe Sousa o qual já se encontrava no terreno há quinze dias. Antes da reunião começar tinha tido uma pequena conversa com ele, no sentido de ser nomeado para um lugar na capital, com um cargo compatível com a minha graduação, devido ter sido nomeado Comandante do Contingente Português e assim poder encontrar-me mais centralizado perante as localizações dos restantes polícias portugueses e ter ainda um contacto logístico mais fácil entre mim e a Direcção Nacional. Tudo parecia prever tal situação, porém, no final da reunião tomo conhecimento de que estava nomeado para seguir para a localidade de Mitrovica, para trabalhar na área da logística, (chefe de logística) juntamente com três Polícias do Bangladesh. Acompanhava-me o Agente Luís, da PSP de Faro. Concerteza que não fiquei satisfeito com esta nomeação e dirigindo-me ao superior hierárquico, um capitão de Polícia Búlgaro, logo lhe fiz saber das razões da minha discordância. O Búlgaro olhando para mim muito admirado disse que a minha nomeação para Mitrovica tinha sido proposta pelo Subchefe Sousa e assim sendo, poderia alterar a situação caso aquele mudasse de opinião. Como já conhecia bem o Subchefe Sousa das outras missões que tínhamos efectuado na Croácia e na Bósnia, como sendo uma pessoa conflituosa com os colegas, preferi não ter mais nenhuma conversa com ele, colocando o assunto às instâncias superiores.O caso de Mitrovica é paradigmático. A cidade está dividida desde Junho de 1999 em duas zonas separada pelo rio Ibar: o norte, habitado por 12 000 sérvios e 2000 albaneses, e o sul, habitado por 49 000 albaneses. Esta é uma situação que os albaneses consideram intolerável; preferiam não ter quaisquer sérvios nas proximidades. Tinha sido uma cidade fortemente bombardeada pela NATO, há cerca de um mês atrás e tínhamos por missão procurar edifícios públicos e na área da logística preparar tais edifícios com as condições mínimas de poder receber os novos 300 polícias da ONU e assim iniciar-se um novo processo de auxílio à população e formação de polícias locais, conduzindo a paz destes dois povos. Albaneses e sérvios do Kosovo com vidas paralelas em Mitrovica. A norte do rio Ibar Zorica Kragovic vende roupa para criança em dinares sérvios. A sul Burim Sezimi e a mulher, Tahire, negoceiam vestidos em marcos. Num e noutro lado do rio, atravessado pela ponte de Austerlitz, sérvios e albaneses têm vidas paralelas dentro da mesma cidade, Mitrovica, o símbolo máximo da divisão étnica no Kosovo. A tensão é contida, o alarmismo varia, mas a situação pode explodir a qualquer momento: os sérvios recusam-se a aceitar a independência do Kosovo e os albaneses dizem não haver outra solução para o estatuto final da província que é administrada pelas Nações Unidas e vigiada por 16 mil militares da NATO. Na parte sul de Mitrovica, cidade que fica a menos de 40 quilómetros de Pristina, Burim garante que "não haverá nova guerra porque os sérvios podem aceitar a independência", revelando ainda que tem vizinhos do Norte na lista de clientes da sua loja, situada numa movimentada rua a meio caminho entre os minaretes de duas mesquitas. "Os sérvios não vêm aqui porque têm medo, diz Artan Maxhuni, dono de uma loja de móveis, a quem o negócio corre melhor no Verão. "É quando os emigrantes kosovares que têm dinheiro vêm a Mitrovica. As pessoas aqui não têm poder de compra, ganham 75 MARCOS por mês, nem sequer pagam a luz!" Mas o passado é, justamente, o problema para muitos dos 70 mil habitantes da cidade. Olivera Mitrovic, sérvia de 77 anos, perdeu dois filhos na guerra às mãos do UÇK. Não pode visitar as suas sepulturas porque estão do outro lado da ponte. "Todos os sábados as pessoas vêm aqui ao mercado e eu venho a este monumento chorar por eles", conta, adiantando que já nada lhe interessa em relação ao futuro do Kosovo. Ferlci Sh. viu o pai ser morto pelos sérvios e a sua casa ocupada. "Há oito anos que fugi do lado norte, agora vivo no sul, onde trabalho como músico", explica o albanês de 30 anos, barba comprida, já atrasado para a terceira oração do dia. Mitrovica é, no contexto actual, uma das zonas mais sensíveis para a ONU. "Há três linhas vermelhasestabelecidas: uma é a de não permitir violência, outra é a de que os contactos com a ONU não sejam quebrados e a outra é que não haja controlo de segurança paralelos [por parte de grupos radicais no Norte do Kosovo]".

KOSOVO

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