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Pág.2Quis queixar-se ao governador, mas só lhe permitiram ver o administrador, um mestiço, que, impassível, ouviu os protestos e concluiu: O que é que eu hei-de fazer? Eles fizeram isso, são Frelimo e eu vou-me queixar a quem? Olhe, mais vale ir para a sua terra, ser varredor de ruas, do que ficar aqui, porque não há-de ser só isso que lhe vai acontecer.E não seria. Meu irmão adivinhava-o. Disse que voltou para casa e chorou amargamente, pensando no seu desespero: O que vou eu fazer para Portugal, sem nada, com uma mulher preta e os oito filhos? Lá a família é capaz de não aceitar. Mais me vale morrer.Teve forças ainda para lobrigar uma réstia de esperança: como não podia trazer nada para Portugal, ia aguentando mais uns tempos, enquanto houvesse dinheiro. A experiência mais traumatizante ocorreu quando, perto de casa e conduzindo um camião carregado de toros de madeira, sentiu que os travões falhavam, acabando por derrubar o poste de um controlo de estrada, bem como alguns soldados. Pediu desculpa, mas de nada lhe valeu. Detiveram-no e acusaram: Ainda tens aquela ideia do Caetano. (Antigo 1. Ministro de Portugal antes do 25 de Abril) Temos de te abrir a cabeça para ver o que ela tem lá dentro. Vamos punir o gajo. Deram-lhe uns pontapés e depois decidiram abrir ali um buraco e enterrarem-no. Se o intuito era pregar-lhe um susto ou se a ameaça era para ser concretizada, meu irmão nunca o saberia, embora se inclinasse para a segunda hipótese. Mandaram-no abrir uma cova no mato, ligeiramente afastada da estrada. Perdido por dez, perdido por cem. Desafiando as ordens para estar calado, começou a gritar, de forma a ser ouvido por pessoas que passavam ao longe: Olhem, estou a fazer um buraco. O sítio onde vou morrer é aqui. Avisem a família. Foi a sua salvação. Foram chamar Sand e os filhos, que ocorreram ao local. Com choros e súplicas conseguiram comover os carrascos. Meu irmão salvou-se, mais uma vez, por um triz.Em 1990, as coisas melhoraram em Moçambique. Enquanto corriam as notícias de um provável acordo Frelimo-Renamo, o prestígio dos portugueses, a sua maneira de estar em África, conhecia uma nova valorização. A política estava boa , reconhecia. No entanto, foi em Janeiro de 1991 que uma última gota fez transbordar a sua taça de amargura. Quando seguia com os trabalhadores para a fazenda, foi emboscado pela Renamo. A princípio, pensou que os tiros eram dentro da mata, entre os dois grupos. O motorista tombado a seu lado, deu-lhe o primeiro sinal. Logo depois, sentiu-se atingido numa perna e no ombro. Desceu do veículo e viu junto de si um homem armado, que lhe ordenou: Não foges. Não fujo, não, irmão. Disse isto e caiu. Sapatos, relógio e uma pasta com dinheiro para pagamentos foram-lhe logo subtraídos. Aproximaram-se mais guerrilheiros e meu irmão ouviu um deles exclamar: Não vale a pena, já está morto. Compreendeu que a salvação estava em simular a morte e aguentou-se imóvel até se assegurar de que os atacantes se haviam retirado.A emboscada deu-se às 7 horas da manhã e só algumas horas depois apareceu uma patrulha de soldados, a quem pediu para o transportarem numa padiola. Recusaram, afirmando que agora, em guerra, temos de ver onde estão esses gajos, senão ficamos aqui todos. Só às 16 horas chegou ao local o seu filho mais velho, que carregou o cadáver do motorista e o corpo ferido do pai num camião.Meu irmão esteve uma semana no hospital de Chimoio, onde as feridas infectaram por falta de condições. Na iminência de sucumbir, decidiu-se a esquecer o orgulho, pedindo ao filho para telefonar ao meu irmão Adelino, a trabalhar na África do Sul. Este deslocou-se ao Chimoio, levando-o ferido para um hospital no Zimbabwe, onde o tratamento só pecou por falta de sangue. Esta deficiência determinou uma segunda transferência para a África do Sul, onde teve a ocasião de contactar uma sociedade mais evoluída como de se certificar de que a amizade dos irmãos não fora destruída por muitos anos de silêncio e afastamento.Convenci o meu irmão de que não tinha de se envergonhar por regressar pobre, garantindo-lhe que é sempre tempo de recomeçar a vida quando se está disposto a trabalhar. Espantou-se com a cidade de Viana do Castelo, comparando o que era em 1953, (foi num carro de bois que de Vila Fria atravessou a Ponte Metálica Eifel para a Estação dos Caminhos de Ferro) e os progressos de hoje. Passava noites sem dormir, cogitando como havia de negociar o que deixou em África e mandar vir a família. Acreditava em três coisas: na sua capacidade de homem lutador e experimentado pela adversidade, no valor das madeiras e na importância das minas de amianto, que só ele conhecia. O renascimento da nação moçambicana – que também a ele custou sangue; suor e lágrimas – pode significar para ele o fim do pesadelo África, adeus! Deixou-se convencer a não regressar a Chimoio mas foi sol de pouca dura. Alguns meses mais tarde, depois de conseguir amealhar algum dinheiro, logo começou a dizer que o seu lugar era junto da mulher e dos filhos, não pelos mais velhos mas sim pelos mais novos, pois não podia aceitar estar a imaginar que pelo facto de estar bem junto dos irmãos, lhe viesse ao pensamento ou através de sonhos que os mais pequenos lhe gritassem Pai! Temos fome. Assim partiu novamente para regressar dois anos depois muito doente, vindo a falecer 4 meses depois no Hospital de Santa Luzia-Viana do Castelo. 9This website was created using MAGIX Website Maker. You will need the current version of Adobe Flash Player to view it. 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