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Nangololo ficava a caminho, mas era uma autêntica obra de caridade andar mais uns quilómetros para evitar que se corresse o risco inerente a uma emboscada naquelas paragens β€” estou a falar da célebre curva da morte β€” A estrada de terra batida cuja berma florestada estava infestada de guerrilheiros que, a cada passo, nos contemplavam com algumas surpresas. " Mueda Terra da Guerra, aqui trabalha-se luta-se e morre-se, "Este era o conteúdo da placa que anunciava a chegada a Mueda.Para os senhores que põem em causa a existência da guerra, só gostaria que tivessem feito a picada Mueda-Omar e a picada Mueda-Nangololo, não falando das várias incursões ás bases inimigas lá bem para o interior do mato, para saberem o que é medo, amargura, desespero e como no meio de tanta aflição se gerava a solidariedade.Mueda é um distrito da província de Cabo Delgado, em Moçambique, com sede na vila de Mueda. Tem limite, a norte com a Tanzânia através do rio Rovuma, a oeste com o distrito de Mecula na província do Niassa, a sul com os distritos de Montepuez e Meluco e a leste com os distritos de Muidumbe e Mocímboa da Praia e Nangade. Mueda é o centro principal do povo maconde uma das etnias de Moçambique.Às vezes achava que era uma farda vazia a caminhar atrás do β€œErl”,(cão de guerra) pela vida fora, na picada, à minha frente, abraçando a Armalite, ligeiramente curvado, com a mochila às costas, parecendo um corcunda soturno.Poucas imagens me fizeram sonhar como um homem minúsculo sentado junto ao tronco de uma árvore. Para mim, durante anos e anos, África foi assim, a floresta muito bem desenhada, como uma tapeçaria, a servir de fundo, e depois em primeiro plano, uma árvore crescendo de um chão imaculadamente limpo.E eu olho em redor de mim para todos aqueles colegas sentados no chão sem terem procurado árvore nenhuma como abrigo e com um único objecto bem junto de si, a armalite.Confesso que me fascinei toda a minha infância, com aquela imagem do homem junto ao tronco da árvore e do macaco cão que ladrava com a nossa aproximação, com a maldade que acabaram de fazer e com um ar de inteligência sarcástica.Eu sei que quando chegarmos a aldeia que teremos de destruir, não encontraremos lá ninguém, felizmente, e que só teremos que incendiar meia dúzia de palhotas no meio do mato. Quando sairmos não ficará uma só palhota inteira e sairemos o mais rapidamente possível para longe dali. Os macondes abandonarão as palhotas e irão refugiar-se na floresta.Disseram-me que tinha de ir combater. Era preciso vencer o mal. Era preciso acabar com o terrorismo.Agora, folheada a História da frente para trás, todos temos uma opinião bem fundamentada sobre o assunto, mas um milhão de portugueses com vinte e poucos anos a quem mandaram combater, aceitaram combater, porque simplesmente acreditaram que era seu dever fazê-lo, dado que não desertaram, e este Portugal com dez milhões de habitantes, fez um esforço de guerra em África jamais esquecida desses portugueses de vinte e poucos anos que não desertaram por terem acreditado que estava certo o que faziam.Todos perdemos algo por lá, mesmo que a falta não se veja.

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