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pag.4“Vai ali até aquele bidão que eu encho o tanque e quanto ao dinheiro pagas quando puderes. Trabalhava como aprendiz de serralheiro na fábrica TEXTÁFRICA. Ganhava 500$00 mensais. Vivia então em casa da minha irmã Ester. Existia apenas um cinema junto ao edifício do Clube Sporting onde o meu cunhado Zé Maria trabalhava como porteiro. Entretanto é construído o maior e mais belo conjunto arquitectónico da cidade, constituído pelo prédio e cinema Montalto, construído no centro e com frente para as duas principais avenidas, integrando, para além de uma moderna sala de espectáculos, um espaçoso café, lojas, escritórios e apartamentos de habitação. Foi um dos mais arrojados projectos encabeçado pelo patriarca, António Correia de Sousa Magalhãrs (conhecido por "Magalhães Careca"), de parceria com outros dois bem conhecidos empresários da época, Eng. Jaime Guedes e Jorge de Abreu. A empresa que formaram SCM, daria assim o nome a este complexo e ao próprio cinema que ainda hoje é a única sala de espectáculos da cidade. A família Magalhães era também proprietária da empresa LICA, que comercializava internamente e exportava as ricas madeiras de Moçambique, preparadas nas duas serrações que possuía em Gondola e Inhamacoa, onde meu pai trabalhara. Embora com apenas 15 anos de idade sou aceite para trabalhar naquele cinema como arrumador/porteiro, fruto das boas relações granjeadas entre meus pais e casal Magalhães. Minha irmã Ester mostrou-se contra, razão suficiente para decidir ir viver para casa do meu irmão Manuel. Um dia conheci um rapaz da minha idade de nome João, um mulato com mistura de pai chinês e mãe preta. Combinamos os dois apanhar a automotora vindo da cidade da Beira com destino a Untali. O meu irmão apercebendo-se da intenção avisa as autoridades locais mas já era tarde. Tinha recebido o ordenado do cinema. Ao chegarmos à vila de Machipanda, fomos alugar um quarto na pensão e apercebemo-nos que a polícia estava a falar com a proprietária. Desconfiados, às 04H00 da madrugada tentamos abrir a porta do quarto mas estava trancada por fora. Abrimos uma janela por onde saltamos e no silêncio consentido da madrugada cacimbeira, memorizava os contornos do rumo que deveríamos tomar, subindo um monte existente do lado direito da vila. Seguia o rumo que nos poderia levar a recomeçar tudo, sentindo no novo caminho o sabor da esperança. Entreguei-me nesta aventura acreditando na minha própria individualidade. Tìnhamos caminhado cerca de 2 quilómetros quando ouvimos cães a ladrar. Logo nos apercebemos da aproximação da polícia. Levávamos como bagagem uma mala cada um. Mesmo assim, começamos a correr com elas às costas. O João a determinada altura começa a sangrar pelo nariz. Estava cansado. Dizia e repetia que Já não aguentava mais. Corremos cerca de 2 quilómetros e deixamos de ouvir os cães. Caminhamos, caminhamos, caminhamos até encontrar uma árvore na sombra da qual me estiquei uns faustos minutos a repousar. Andamos mais cerca de 3 quilómetros e avistamos as primeiras casas. Tinha acreditado nas estrelas da noite e entramos confiantes na cidade. O João tinha uns amigos a morar na Florida, localidade situada nos subúrbios e normalmente utilizada por pessoas de raça mulata. Conseguimos lá chegar e fomos recebidos por uma família conhecida do João numa dessas casas feitas de chapa de zinco, porém, uma semana depois somos aconselhados a voltar para casa por não termos documentos. Apanhamos um taxi até perto da fronteira, onde nos ensinaram um atalho mais curto normalmente utilizado por contrabandistas. Na estação de Machipanda estava o comboio que nos levou até Manica. Aqui fomos ao Posto da Polícia para que me dessem um bilhete de identidade. Onde nasceu? Vila fria-Viana do Castelo-Portugal. Tens que pedir a um familiar que mande uma certidão de nascimento. Desanimei, não sabia nada dessas coisas de certidões nem bilhetes de identidade. Nunca cheguei a ver na minha mão nenhum documento que me identificasse. Sabia que minha mãe utilizara uma cédula pessoal que servia de documento, mas que se tinha extraviado. O João tinha o mesmo problema, não sabia como requerer o bilhete de identidade. O dinheiro tinha-se acabado. Tínhamos fome e não tínhamos onde dormir. O João lembrou-se de um primo da sua mãe que morava ali perto numa palhota. Fomos para lá. Comemos arroz e passamos a noite. À boleia chegamos a vila Pery já pela tarde. Tinha fome. Fui até ao muro das traseiras da casa de minha irmã. Vi o meu sobrinho Afonso e disse-lhe para me trazer de comer. Assim fez. Embrulhado num papel um grande bife num razoável pedaço de pão. Dividi esta merenda com o João. Ganhei coragem e fui apresentar-me à casa do meu irmão Manel. Já adivinhava o que me esperava. Foi muito amável de início dizendo para entrar que não me batia. Entrei e fui obrigado a entrar na casa de banho. Preparou o cinto e deu-me uma tareia. Resisti como pude e voltei a fugir.Tive informações que o meu pai era proprietário de uma serração para os lados de Inhaminga, no interior do mato – há cerca de 50 km da cidade da Beira. Fui para a estrada pedir boleia onde cheguei aquela cidade já noite cerrada. Dei comigo num jardim público situado junto à praia. Vim sozinho com o meu destino. Ali cheguei. Ali estava.Quando tentava adormecer deitado num banco de jardim, alguns adultos provocavam alguma gritaria junto dos baloiços. Fecho os olhos e Adormeço diluído em noite e ausência, não sem que antes, o meu olhar, que tinha a fosforescência dos eleitos ou dos animais livres e puros, iluminasse mais uma vez o negrume que cobria o mundo.Ao relento, num banco de jardim, dormia uma criança que tinha a esperança de se encontrar com o pai.Um polícia acorda-me e pergunta com voz calma o que estava ali a fazer. Meio ensonado retorqui! Não fui eu, são uns rapazes que estavam nos baloiços. Um pranto convulso inunda-me os pensamentos e o rosto do polícia cresce, furtivo, na sua ternura. Não era isso que lhe interessava saber. Leva-me para a Esquadra. Conto a minha história, “queria ir ter com o meu pai numa serração algures no interior do mato, lá para os lados de Inhaminga”. O polícia com uma estrela na mão direita e os olhos grandes e voz macia leva-me a sua casa onde me apresentou à mulher para me dar de comer. Fiquei tão estupefacto com a atitude que, durante alguns minutos, não fui capaz de dizer nada. Embrulhado na noite deu-me uma prenda linda sem papel de embrulho nem fita de enfeite, pelo qual nunca saberei como lhe agradecer. Só espero que, nestes dias do impossível possa acontecer, que do ovo nasça uma ave branca e que a ave fique esvoaçando neste nosso universo, interrompendo os olhos distraídos de quem passa, para ajudar muitos, muitos, muitos meninos sem lar a descobrirem as ínfimas coisas belas que há e encontrem um dia, de novo, o alto dos montes e tudo se refaça como no princípio. COLONO AOS 9 ANOS DE IDADE 16This website was created using MAGIX Website Maker. You will need the current version of Adobe Flash Player to view it. Further information can be found at magix.info - the Multimedia Knowledge Community by MAGIX, the market leader for music, photo, and video software. |