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pag.5Uma vez na Esquadra, fico sentado em frente a uma mesa castanha numa cadeira da mesma cor. Tinha as palmas das mãos assentes no tampo onde se notavam algumas manchas de suor. Os olhos levantaram-se na direcção das duas cadeiras a três metros à minha frente para logo descerem até ao tampo da secretária com um brilho de vergonha. Debrucei-me sobre a mesa e pousei os cotovelos. Encolhi-me na cadeira com o queixo encostado ao peito e com os braços a envolver-me a cabeça, como quem se protege do claro obscuro.Pela madrugada uma voz entristecida com um sorriso forçado desejou-me sorte, aquecendo o meu coração, porque a vida é fria, a rua é árida e a fraternidade é uma palavra velha que se deve acender. Outra vez à boleia até ao Dondo, e depois a pé na estrada de terra batida de Inhaminga. Pára ao meu lado um camião conduzido por um “preto” que me leva até um cruzamento que dava acesso a uma picada por onde passavam os camiões que transportavam toros de madeira cortados nas serrações existentes há cerca de 30 km dali. Então o motorista disse. Olha, menino ficar aqui. Espera os camião que vai buscar madeira no serração. Assim fiz. Uma hora depois avisto o primeiro camião vindo da Beira. Espanto meu. Meu pai vinha nesse camião. Já se passara tanto tempo, no entanto sua lembrança sempre está entre uma coisa e outra que penso, ou uma frase que falo. Quem ouve desde menino, aprende a acreditar, que o vento sopra o destino. Tinha estado hospitalizado durante uma semana. Disse que o cozinheiro tinha posto veneno na comida para o matar, mas tinha conseguido sobreviver. Ficamos (como era de esperar) muito contentes de nos termos encontrado com as lágrimas substituídas por um sorriso feliz. Junto a um retiro ali muito perto merendamos umas sandes onde, confesso, estava com muita fome. Numa viagem de todo previsível aí seguimos nós, sentindo-me como um passageiro em férias. Pelo caminho sentia-se o cheiro a leões e elefantes, e trinta e picos quilómetros depois, eis-nos a chegar à serração do amigo do meu pai, onde pernoitamos. De madrugada, com o tanque do camião, cheio de gasóleo, iniciámos a etapa final até à Serração do meu pai, que distava 15 quilómetros dali. Mas a picada era mais penosa, sendo necessário desenterrar as rodas cobertas de areia. O camião era conduzido por um preto sem carta mas conhecia bem aquelas picadas. Passamos por uma ponte feita de madeira com bidões de chapa a boiarem a fazerem de pilares. Chiava como o diabo. Até parecia que era daquela que iria ceder e fazer-nos mergulhar no rio. O rodado do camião fartava-se de tremer, com a ondulação constante. Mas estas peripécias coloriam uma viagem maçadora em termos físicos, mas muito compensadora e enriquecedora sob todos os outros aspectos, e stress dum ambiente fresco, cheio de mistério, mais imaginado que real, mas que eu cultivava, pois queria sentir o pulsar de África ali bem dentro do mato. Chegados à casa, fomos recebidos pelos trabalhadores, e por uma rapariga preta, amante do meu pai. Era a recepção da malta naquele ambiente especial, que o citadino não poderia entender. Dentro da casa de Madeira, coberta com folhas de zinco estava uma mesa preparada com um frango à cafreal, pintado com um molho de piripiri, que segundo a D. Muxima, era segredo da casa. Eu não sei se era mesmo segredo, mas que era divinal, era. Debaixo duma micaia, das que despontavam aqui e ali, no capim, ainda verde, da altura do joelho, escutava os ruídos alheios àquele mundo maravilhoso. Aquele cheiro, aqueles sons, aquela paisagem, aquela luz radiante, a alegria de viver, que nos era mostrada pelo cantar da passarada e das rolas, que depois de desvendado o seu camuflar, ensaiavam longos voos a perder de vista. As galinhas do mato, tontinhas e previsíveis, mas rápidas no esconder nas matas, e de voo mais difícil, tipo Jumbo 747 com a carga toda...Quando de madrugada me acordaram, para visitarmos o corte na floresta, senti um bem-estar enorme, de quem havia dormido descansado, oito horas seguidas. O pequeno-almoço na serração era uma coisa muito séria. Bife com ovo e batatas fritas, sumo de laranja, café com leite, pão, manteiga, queijo e chouriço... E, a fruta, papaia, laranjas ou mangas. Isto ás seis e meia da manhã! A viagem até ao lugar do corte foi penosa e cheia de percalços normais, em terras arenosas, por sulcos enormíssimos feitos pelos rodados dos tractores, de transporte de troncos, que por ali andavam, como reis da paisagem. Por vezes, fazíamos um novo caminho. Mais adiante, outra savana com capim baixo e terreno lodado e por vezes seco e duro com mato de árvores de porte mais forte, terreno de cultivo de mandioca e amendoim.Chegados ao local de corte para que fossem escolhidas as árvores, os trabalhadores fizeram com minúcia a escolha das que deviam tombar.O almoço em serviço foi composto por sandes diversas, vinho, águas, e Coca-Cola. Só ao final da tarde iniciámos o regresso. Quase a chegar a casa, conseguimos caçar umas galinhas do mato, que serviriam como petisco delicioso. O jantar de fim de jornada, após o banho retemperador, foi divinal. Era dia de bacalhau com batatas. O serão foi curto a dar azo à imaginação do sentir ali, a alma de África. Abri a janela, única, deixei apenas a de rede fechada, para ouvir os sons tão característicos da incomparável noite africana. Nem um mosquito, nem uma aranha, mais parecia um paraíso. No dia seguinte era dia de serração, isto é, não haveria saídas para o exterior, e depois era sábado, o ultimo dia da semana.Dormi como um justo ao som da partitura do “Nocturno” de África... Acordei, recomposto do esforço da véspera, e até cheguei atrasado ao pequeno almoço, com aquela ementa fortíssima, agora ás oito horas, já com o sol a aquecer tudo e todos. Como para mim era dia de folga dei uma vista de olhos pela serração, onde aqueles toros bem pesados e grossos eram transformados em barrotes, que serveriam para as linhas dos caminhos-de-ferro.Visitei os filhos dos trabalhadores, e vi as dificuldades para entender aquelas crianças adoráveis, que não entendiam o que se dizia porque não “dominavam o português”. Convidei-os a subirem para a carroçaria do camião, pois íamos dar um passeio por uma planície que mais parecia um deserto. Confessar-me-ia que aquela experiência, ali no mato, tinha sido algo de tão maravilhoso que nunca poderei esquecer na vida. Ainda hoje recordo a Serração, aquele isolamento, que mais tarde receberia a chegada do meu irmão Adelino, vindo de Vila Pery à minha procura... Mistérios de África que citadino tem dificuldade em entender.Passei o tempo numa experiência pedagógica interessantíssima e vi como funciona uma indústria de madeiras na sua raiz... Mas o pior estava para vir... O suficiente para motivar outra longa história. Meu pai COLONO AOS 9 ANOS DE IDADE 48This website was created using MAGIX Website Maker. You will need the current version of Adobe Flash Player to view it. Further information can be found at magix.info - the Multimedia Knowledge Community by MAGIX, the market leader for music, photo, and video software. |