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pag.8Cerca de dois meses depois voltei a convidar meu irmão, mas desta vez estava melhor informado sobre o verdadeiro itinerário (Posto fronteiriço de Reçano Garcia). Meu irmão recusou dizendo que não queria passar por outro interrogatório da PIDE.Preparei tudo e compro bilhete para o comboio que seguia da estação de caminhos-de-ferro de Lourenço Marques até Ressano Garcia. O comboio chegou ao destino ao anoitecer. Entro na Vila e procuro uma picada com destino a umas palhotas. Trepei para uma grande árvore onde permaneci até a meia-noite. 0 Silêncio extraordinário em volta dava conta da passagem pela picada de alguns pretos embriagados vindos da vila. Mas eu não estava preocupado, a luta era tanto física como mental. Percorri com o olhar toda a abóbada celeste e descobri apenas a lua e estrelas sem mácula. O luar radiante estava em todo lugar. Em volta, uma pequena planície se abria em todas as direcções. Em torno de mim, apenas um chão arenoso e seco, salpicado aqui e ali por um mato de pequenas folhas secas e caules retorcidos. Havia montanhas ao longe. Comecei caminhando a esmo, vagamente recordando uma noite de sonhos agitados, em que alguém partia, em que algo se desfazia. Olhava adiante em busca de qualquer coisa que me indicasse o rumo que deveria tomar. Depois, de olhos sempre levantados, segui caminhando sem muito pensar. Havia um aperto no peito que, mais que uma dor, era uma ausência, uma falta, um nada que por dentro me oprimia. Caminhei e caminhei. Enquanto caminhava, mais e mais notava a cacimba tosca, mirrada, persistente. Vagamente considerei que a cacimba mirrada existia. Sem me dar conta, meu caminhar errante foi deixando de ser um perambular sem sentido. Era diferente do vagar sonâmbulo que me conduziria para longe. Agora, sem ter por quê, concentrava-me nos detalhes do mato seco que cobria o chão. Era tanta a energia que dedicava àqueles pensamentos, que me esquecia do vazio na alma, do olvidar atormentado. Estanquei, curioso, e notei que os miseráveis ramos lançavam filetes de sombra sobre o solo. Com uma nesga de esperança, procurei na inclinação das sombras uma indicação da posição da lua. Examinei com cuidado e descobri, frustrado, que as sombras finas e retorcidas se lançavam para todos os lados. Retomei meu caminhar, e quando a madrugada chegou, sentei-me no chão e esperei. A noite fora um negro vazio, sem sonhos, nem lembranças. Ergui-me e admirei aquele novo dia de céu azul, infinito, inclemente, iluminado por um sol que não se via. Com a boca seca, e a roupa mal-amanhada, sentia uma vontade própria, uma vontade de voltar a caminhar, com um novo objectivo. Segui de alma pesada na direcção daquele País que me pareceu impossível. Havia algo de libertário naquele caminhar de passos cadenciados com um firme propósito de alcançar solo Sul-africano. De algum canto profundo brotou um sentimento difuso, algo desprendido de tudo. Diferente da caminhada anterior, ao invés de olhar para o horizonte, ao invés de buscar algo que interrompesse a planura sem fim, ao invés de enfrentar a luz de um sol indeterminado, mantive os olhos na estrada alcatroada ao mesmo tempo que gravava nas retinas o meu oponente com um olhar seco e retorcido, apercebendo-me que ele me vê. Um indígena de bicicleta em direcção à estação de serviço levando no quadro uma mulher. Entro na estrada e continuo a caminhada, pois avistava à minha frente uma ponte e do lado direito uma vila “Komatiport”. Dez minutos depois o indígena regressa sozinho, aborda-me e tenta algemar-me. Abri os olhos para o céu azul e pálido. Ergui-me e senti o corpo pesado, indolente. Por um tempo, permaneci quieto, parado, esperando que o cérebro clareasse. Ainda zonzo, pressenti que assim que superasse o torpor, algo ruim invadiria minha alma. Não o compreendia e falo a língua changana (Língua nativa moçambicana). Seu rosto, se não exibia um sorriso, mostrava um ar levemente compenetrado. Embora não pensasse no assunto, embora não pensasse em nada, na verdade meus olhos fixaram-se no homem como que hipnotizado e dei em mim agarrado ao seu corpo, numa luta desenfreada, para evitar ser algemado. A polícia sul-africana veloz como um relâmpago leva-me para a Esquadra e coloca-me num calabouço durante dois dias. 49This website was created using MAGIX Website Maker. You will need the current version of Adobe Flash Player to view it. Further information can be found at magix.info - the Multimedia Knowledge Community by MAGIX, the market leader for music, photo, and video software. |