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pag.9Tudo o que desejava era parar, era deitar o corpo cansado, cerrar os olhos e mergulhar numa noite escura e livre de sonhos ou pensamentos. Alheio a tudo, alheio ao nada, deitei-me na tarimba da cela. O que eu menos desejava acabou por acontecer. Ao despertar, foi um céu claro e azul que atravessava as grades e invadiu meu pensamento. Por um tempo, permaneci deitado sobre as costas, tomado por aquele fundo cinzento e vazio. Se de repente perdesse todo o peso, se subitamente meu corpo ficasse vazio como a própria alma, flutuaria para sempre, até tornar-me um pequeno ponto invisível naquele anil sem fim e sem sentido. Porque senti que meu corpo ainda pesava, porque senti que meu corpo doía e que ao menos naquele dia não flutuaria, suspirei e pus de pé a carcaça. Irritei-me. Não queria nada, não almejava nada, pois não tinha lembranças, não traçara projectos, não perseguia objectivos. E, assim, avancei como antes, de pensamentos tolos e sombrios, carregando certa raiva, certa revolta, se bem que sem um alvo, se bem que sem algo ou alguém em quem descarregar a ira e minha dor. E quando regressei à Esquadra depois de ter sido presente ao Juiz, condenando-me com uma simples pena de expulsão, imponente, percebi que existia uma variedade de cores, de tons cinzentos e irregulares. Já não me preocupava o vazio da memória, pois recordava cada dia desta nova vida, do meu início árido, da minha lenta descoberta, e agora o vento açoitando o meu destino desconhecido. Sentia-me forte, rijo, vigoroso. Mas, naquele dia, pela primeira vez em um longo tempo, senti-me incomodado. Naquele dia, o destino não me fascinara e meus sentidos não estavam alerta para os sons, as sombras, os tons, as texturas, as cores. Não percebia os detalhes e em meu peito crescia um misto de medo e desejo e não me atinava, porque, agora, crescia e cada vez mais me premia uma urgência de regressar a Lourenço Marques. Permaneci parado, e o silêncio estava dentro e estava fora. Sou obrigado a despir-me, a debruçar-me e a manter-me dobrado sobre uma cadeira. Ali foram-me desferidas 20 fortes chicotadas. Era um espaço grande demais para estar só, pequeno demais para a dor que sentia. Baixei-me sobre a cadeira e assim permaneci com a visão no chão e das suas partículas. Parado na dor. Parado no sentimento que me atordoava num misto de letargia. Da que dá e acredita, num entusiasmo infantil em viver jogando e aprendendo, em precipitar emoções que se espelham em corpos sempre fugazes. O corpo irrompera em movimentos de desespero. Rir. Chorar. Sorrir. Parar. Aguardava as lágrimas. As que não viriam. As que surpreendentemente não vieram e me assustaram. O choro e o riso. O choro. O choro onde está? E levantando-me, rebentei em lágrimas por dentro. O corpo permanecera embrulhado em névoa e dor e no embrutecimento da vida, um chicote nas mãos de um polícia racista que lhe provocara vingança, prazer e excitação. "Chorei. Chorei de raiva! Chorei de desespero, chorei de revolta! Não é vergonha nenhuma, pois não?" Descobrimos que vivemos num planeta insignificante, mas que anda à volta de uma estrela qualquer, numa galáxia enfiada no canto de um universo onde há muito mais galáxias que pessoas. Com algum receio, lentamente levantei a cabeça. Sem surpresa, mas frustrado, vi o velho horizonte sem saliências ou elevações, morrendo ao longe, fundindo-se imprecisamente com o azul indistinto do céu. Corri a vista ao redor, cansado, desesperançado, já antecipando o mesmo vazio sem fim. Então, lívido, recordei vozes e risos, e dias, e rotinas, e rostos e tantos momentos, e quando tudo desacelerou e minha mente parou de girar, percebi que estancara e que olhava para um só lugar. Acompanhei o próprio olhar e finalmente entendi: ainda longe, mas bem visível, estava ela ali, a cidade de Lourenço Marques, naquele mesmo lugar de onde partira e sempre retornava nos tempos do céu claro e com muito sol. Nítida, atraente, reconhecida que ela era, permanecia onde sempre estivera. Engoli em seco e pensei: afinal ali era a casa. Tinha enfrentado uma parte das amarguras que o destino nos reserva, mas sentia que ainda iria a tempo de mudar tudo isso, pois nunca era tarde para tomar a opção correcta. COLONO AOS 9 ANOS DE IDADE 47This website was created using MAGIX Website Maker. You will need the current version of Adobe Flash Player to view it. Further information can be found at magix.info - the Multimedia Knowledge Community by MAGIX, the market leader for music, photo, and video software. |