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Voluntário pára-quedistaDesembarquei na Estação de Darque e segui a pé pela linha do caminho-de-ferro até a “Ponte seca”-Vila Fria. A mala que levava era pesada. Parecia que nunca mais chegava à freguesia que me viu nascer. Continuei a marcha e ainda não me tinha esquecido da localização da casa das minhas primas. Á medida que me aproximava o meu coração latejava mais depressa, por estranho que pudesse parecer aquele caminho bafejado pelo vento recordava-me algo familiar, como se abrisse dentro de mim um outro trilho paralelo.O pai delas mais conhecido por “Manão” devia-se lembrar de mim, pois também estivera algum tempo em Moçambique. Bati ao portão já era madrugada. A recepção foi fria no entanto deram-se a amabilidade de chamar o meu padrinho Adriano, irmão da minha mãe que morava ali perto que me empresta uma bicicleta para ir a Alvarães ter com os meus avós.Ainda não me tinha esquecido do itinerário. A única diferença que notara era a estrada. Parecia ser mais estreita do que antes. Ao ritmo do alcatrão que conduzia ao Lugar do Paço e que rompia as freguesias em dois, do Sol que esventrava os campos ainda verdes e inundava as fachadas das poucas dezenas de casas térreas e à medida que me ia aproximando, o rosto transfigurava-se… em cada curva parecia acender-se uma lembrança.Como iriam reagir? Como estariam eles?Entre lágrimas, abraços, soluços… nos seus rostos espelhava-se amor, carinho, ternura, emoção… Foi um dia em que a avó, o avô e o neto, puderam partilhar um momento de cumplicidade, de tristezas e alegrias.Meu avô, continuava com os trabalhos de artesão, onde meu primo Joaquim o ajudava no trabalho. Comecei também a cavacar a madeira com uma enxó a tentar ajudar. Em frente morava uma rapariga chamada Amélia. Não largava a porta da oficina. Meu primo disse que ela gostava de mim. A verdade é que Amélia não era nome de que gostasse. E quando, passado alguns meses de namoro lhe pedi para ser beijada, ficou sem saber o que dizer. Fez uma cara que, no fundo, queria dizer o mesmo que “não”. E ficamos os dois sem jeito. Olhei para ela. Continuava de rosto pendido sobre o peito. Sorri, mas de imediato o semblante entristeceu. Após meditar uns segundos disse: - tenho pensado muito no meu regresso a África, desta vez para integrar as forças militares a combater no norte de Moçambique. Eu quero descobrir o meu sonho, esforço-me para isso, quero saber qual é, mas não consigo. Ainda não sei. Enfim, como diz o ditado, lá virá a altura em que o tempo ditará o destino.O Natal e Ano Novo foi passado no Regimento porque precisava de dinheiro e passei a cobrar 300$00 por cada serviço aos colegas que queriam passar o Natal e fim de Ano em casa, no entanto ainda aproveitei alguns dias de férias antes de iniciar o curso de pára-quedismo. Como não estava habituado a ir a missa, meu avô repreendeu-me dizendo: “Nesta casa toda a gente vai à missa, quem não vai não entra nela”. Fiz-lhe a vontade. Chego à Igreja de Alvarães já a missa tinha começado. Entrei e ajoelho-me. Só via mulheres. Todas olhavam para mim. Depressa me apercebi que o meu lugar não era ali. Tinha que ir à volta e entrar pela porta do lado. Os homens estavam separados das mulheres e as crianças a frente.A igreja estava cheia e os homens bordavam porta fora. Assisti a missa ali mesmo, meio dentro, meio fora. Quando a missa acabou, cá fora dois indivíduos tinham uma banca montada e começaram a pregar a chamada banha da cobra. Pareciam políticos a falar.Deu-me vontade de rir, Apercebendo-se os fulanos do meu riso logo me atacaram verbalmente e com muita inteligência de forma a deixar-me de certa forma embaraçado.Durante a recruta houve bons e maus momentos, aquela frase que andava sempre a ouvir dos mosqueteiros “um por todos e todos por um” afinal entendi realmente o que ela valia, pois pagávamos todos pelas falhas de cada um. (Vá, uma completa, ou, 20 flexões de braços, ou, 50 cangarús, ou 40 pulos de galo, etc) Aí se começa a ganhar o grande ESPÍRITO que impera nas TROPAS PARAQUEDISTAS.Acabei a recruta, e alguns camaradas com muita pena minha, ficaram pelo caminho por diversas razões. Veio o Juramento de bandeira e depois o Curso de Pára-quedismo.Acabava-se o massacre psicológico e entrava-se no massacre físico.”Um bom prato para emagrecer”, sem dúvida. Pelo menos, acabavam os saltos para as poças de água, para as silvas, as instruções nocturnas, etc… Entrava-me realmente noutra era…Era mais estimulante, pois estávamos a um passo de conseguir os nossos objectivos. Estando na semana de saltos, não sei se estava preparado psicologicamente para saltar ou me atirar do avião. No que mais receava era do pára-quedas. Depois de saltar e ver que abriu, pronto, estava tudo bem. A chegada ao solo não era problema.SALTEI!!!! Único!!! Fantástico, sem dúvida a melhor sensação de adrenalina que já tive! Tinha sido uma luta muito grande a que me propus e não me podia desiludir. Um dos momentos mais esperados, estava prestes a ser concretizado e poder mostrar a BOINA VERDE e o BREVET ao meu tio Domingos, pela sua atitude generosa de me criticar quando soube que tinha prestado provas e ficado apurado. “Coitado, com um corpo desses quer ser pára-quedista, tem juízo, hé, hé hé). Foi um ponto marcante da minha vida e lutei para que esse dia chegasse …, BOINA VERDE E BREVET aí vai ele! No mesmo ano, ainda com 17 anos de idade, fui-me oferecer como voluntário para ser Pára-quedista. No Quartel da Matola, prestei as provas físicas, e na prova de boxe puseram-me perante um elemento fisicamente igual ao meu. Foi canja. Bastou um soco para o lançar ao chão. Pedi ao sargento que me deixasse lutar com outro mais forte. Foi-me negado. Em Agosto um avião militar juntamente com os outros voluntários, leva-nos para a Metrópole/Lisboa e dali para Tancos, tendo como escala Luanda e Guiné-bissau. Em Tancos deram-nos umas curtas férias. Comprei o bilhete para o comboio com destino a Viana do Castelo. Pelo Caminho passo o tempo a magicar como iria ser recebido pelos familiares. VOLUNTÁRIO PARA-QUEDISTA 18This website was created using MAGIX Website Maker. You will need the current version of Adobe Flash Player to view it. 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